Poesia

















Maria, 15 anos

Clóvis Cavalcanti
Para Maria, Mamá, Mariazinha

“Viva Maria! Viva Maria!
Tão bonitinha. Tão safadinha”
– cantava o avô quando a neta era miudinha.
Refrão simples, brincalhão, amoroso.
Era tudo o que o avô queria expressar
ao visitar a menininha nascida longe
(Champaign-Urbana, Estados Unidos).
E que antes de conhecer o Brasil,
a terra ancestral de tantos bisavós e trisavós,
foi primeiro ao Velho Mundo
(não tinha nem um mês):
à origem dos Guimarães da estirpe materna.
Foi lá que o avô a conheceu
(os dois avôs, aliás),
em Campo d’Ourique, Lisboa,
de saborosos vinhos, bacalhau,
pastéis de nata e arroz doce,
quando a neta tinha dois meses.

“Viva Maria! Viva Maria!
Tão bonitinha. Tão safadinha”
– o refrão prosseguiu quando a neta miudinha
cresceu, cresceu, cresceu,
até ficar do tamanho do avô.
Porque ela continua a ser
tão bonitinha, tão safadinha
– como no dia em que o avô a conheceu
e entrou em seu coração para sempre.
“Viva Maria! Viva Maria!”


olinda, 2 agosto de 2016































HAPPINESS

                        Clóvis Cavalcanti



ThimphuBhutan, a different world
(a world you might well get to know).
Gross National Happiness  
– GNH, maybe a wisecrack allusion to GNP.
For our world thinks only about economics,
and GNP is all that life is about.
So much the better that the Fourth King of Bhutan, in 1972,
wisely, at only 17 years of age
(ah! How we miss wise kings),
decided: happiness is worth more than the economy  
– away with the rationale for GNH,
a fix to sate the vice of quantification,
the very basis for an ill-fated GNP.

That’s it – happiness can’t be measured,
nor maximised
(there will always be a maximum
above the maximum you calculate).

Happiness is to be enjoyed, achieved, felt.
It’s in the blue of the sky and the sea out my window,
in the golden sun I see rising from my attic,
in the gentle summer breeze of late-afternoon Olinda
in the waterfall of Alef (on the Farm of the Tao),
in the gaze of my dog Belinha and my cat Maracatu,
in the candor of heartfelt convictions,
in the rosiness, the fragrance, the softness
of granddaughter Lis, two weeks old.
And there in the affection of the beloved sweetheart,
in dear family,
in embracing friends  –
those of long standing
and those more recent.

Happiness is not “gross national” (GNH)
nor “gross domestic happiness” (GDH).
It is only, and completely, happiness.

Merry Christmas.
Lots of happiness!
Best wishes,



















































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Visão do Amor
A Vera
Clóvis Cavalcanti

Outubro, raios de sol,
um azul intenso, perfumes, flores
- amanhecer do amor.
Na casa, a energia circula.
Não é visível: sente-se.
Paira sobre a cama. Talvez cintile.
Não é possível apalpá-la. Nem isso é preciso.

Um vento vespertino sopra. Acaricia.
Anúncio de momentos desejados.
Hora de considerar as emoções.
De deixar que elas tenham domínio
- sobrepujem o intelecto.
Não permitam que uma mente desgarrada
mate o amor, como tantas vezes faz.
E o faz porque se lhe dão poderes.
Que o amor fica para depois,
para quando se concluir a reflexão
e ver se vale a pena, ou não.

Só que o amor valerá sempre a pena.
O amor dos amantes, o amor do mundo,
o amor na flor da pela, no coração, na alma,
o amor que alimenta a mulher amada
e a faz maior que os limites físicos da natureza.


Olinda, 8.10.13.













































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O Tronco Familiar dos Cavalcanti

Clóvis Cavalcanti


Das terras úmidas de Maraial,
a origem comum na Usina.
Casa grande ao lado do rio Fervedouro.
Água pura de fonte, as galinhas no quintal
– de mangas, bananas, goiabas e abacates.
Os doces. Imenso consumo de açúcar
(a unidade era o saco de 60 kg).
Tantas comidas saborosas.
Pai, mãe, avós, e mais ancestrais,
ligados à cana e ao mundo do interior.
Os filhos desejados
– uma dúzia nos planos da mãe.
Foram onze, quase a meta. Criados dez,
que o pai de bom grado ajudou a conceber.
E foram assim felizes,
os dias escoando e contentando.

Não se soube de haver tempo ruim.
Cada filho tomou um rumo
 – político, espiritual, filosófico –
à base da mesma educação,
dos mesmos princípios e valores
(decência, honradez, honestidade).
Não chegaram a se multiplicar tanto
na geração que veio depois. 


Mas o tronco foi fincado,
De onde brota a estirpe que só quer um viver pleno,
e deixar que o sangue flua com intensidade
levando  valores que honrem os que dele são a origem.

Feliz Natal
Olinda, dez. 2012.

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Família
Clóvis Cavalcanti
 
Olinda.
Gravatá.
Pedra do Tao.
Cachoeira do Álef.
Muro Alto.
Maraial.
A Visconde de Goiana
e a Fazenda do Tao.
Os pais,
os filhos,
os netos,
a família,
os anos.
A vida,
o amor.
Tempo de ser feliz
– sempre.

dez 2012

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SOL DE DEZEMBRO




Clóvis Cavalcanti



Dezembro –

um sol ousado nasce.

Vejo-o da janela de meu ático

na manhã irisada do verão.



Ele tem coisas a revelar –

como a da tristeza do antiecologismo

que causa ver como invade a sociedade brasileira;

como a das injustiças que produz

o valor supremo dado ao dinheiro;

como a do despudor de se mentir

sobre um suposto avanço social

medido tão só pela régua do produto interno bruto.



Sim, o sol fala, grita, reverbera
emoções, sentimentos e valores.
E não pode calar, de fato,
quando se exalta o supérfluo,
a posse, a aparência, a mentira, a ilusão,
o futuro sem significado.

No entanto, o que é o fruto do Espírito?
Já o definiu São Paulo aos gálatas:
amor, alegria, paciência, paz,
amabilidade, bondade, lealdade,
 mansidão, temperança, afeto.
“Contra estas coisas não existe lei”.

Ah! Como o sol de dezembro,
que vejo do meu ático de Olinda-Carmo,
gostaria que essa fosse a regra!

Olinda, 2012
Poema natalino
 
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De Guimarães, Pereira e outras fontes
Clóvis Cavalcanti

Grota, Mimosinho, Pedra Grande
– nomes musicais, uma mística agreste,
e laços de família, sangue rural, crenças sólidas.
Um meio severo, misterioso, ensolarado.
Açude, umbuzeiros, cajueiros, juazeiros,
vacas, ovelhas, bodes, mugidos e balidos.
Galinhas, perus, mocós, assuns pretos
e carros-de-boi lentos, de rangido dolente.

Terra inesquecível.
A gente simples, modesta e valorosa.
O trabalho duro, as festas, os forrós:
alegria telúrica, visceral e verdadeira.

Lembrança de domingos nas casas de parentes,
da avó com legião de filhos, netos e contraparentes.
Lembrança de dias comuns na escola, no campo, no terreiro,
das chuvas abençoadas de invernos bons.
Lembrança das buchadas, das cantorias, dos namoros.
Lembrança da vida feliz como foi, é e deve ser.
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Nosso Tempo
A Vera

Clóvis Cavalcanti

Anos calmos, claros, coloridos
– de luzes, emoções e sentimentos.
Anos vivos, intensos, desejados
– de buscas, anseios, esperanças.

Que a vida é um enorme desafio
– divertido, louco, impressentido.
Assim é o tempo do amor,
do encontro da alegria da viagem
que fazemos sem parar,
sem pensar, sem refletir
– levados pelo rio do destino.
Tempo vivo, curtido, desfrutado.
Tempo nosso, achado, sondado e enlevado.
Em êxtase: ontem, hoje e amanhã.
Feliz Natal 2012

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Minha Flor
Para Vera
A flor de Olinda,
do Mimosinho, de Gravatá
abriu-se com muito brilho esta manhã.
Exalou perfumes doces.
Explodiu em cores fortes,
afirmativas, sertanejas.
A flor de Olinda,
do Mimosinho, de Gravatá
invadiu os espaços de meu coração.
Ela os agita nas madrugadas.
Dá-lhes emoção nas horas matutinas.
E nas vespertinas, nas noturnas,
nas cotidianas e ancestrais.
A flor de Olinda,
do Mimosinho, de Gravatá
oferece-se como presente luminoso.
Dá dimensão aos instantes.
Cria um jardim de árvores e estrelas,
– reais ou imaginadas.
Ela faz com que os anos passem, passem
– deixando rastros vivos de amor.
Ah! A flor do Tao, agreste e lúdica,
de Olinda,
do Mimosinho, de Gravatá...
Flor minha, flor de outubro,
flor da minha vida.
Clóvis
Olinda, 8 de outubro de 2012.
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O Dia da Paz Consumada

Clóvis Cavalcanti

As multidões chegam com o nascer do sol,
trazendo cestas douradas de comida, marmitas e farnéis.
E reúnem-se em todas as praças do planeta
(ainda mais floridas para a ocasião).
Há um milhão de pessoas na Praça Vermelha, em Moscou.
São trezentas mil na Praça de São Pedro, no Vaticano.
Mais de dois milhões no Central Park, em Nova York.
Passam das oitocentas mil no ensolarado Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Há umas dez mil no Pau Pombo, em Garanhuns.
São milhares, milhões nas praças de cidades, vilas e lugarejos.
Sempre chegando ao amanhecer desse dia
– dia frio e cinzento aqui, claro e estival ali,
indefinido e morno acolá, fresco e suave no brejo de Gravatá,
barulhento e fervilhante no Parque da Jaqueira, no Recife.
O mesmo dia.
A mesma expectativa.
As mesmas vozes de esperança,
cantando
dançando
confraternizando.
Como se todo mundo comemorasse simultaneamente
em cada canto
uma vitória definitiva de Copa do Mundo.

Velhos fatigados, arrastando antigos sofrimentos,
sustentam expressões de espanto.
Jovens bailam, dão-se mãos e lábios, abraçam-se.
Mulheres e homens amadurecidos na desconfiança
entreolham-se, vêem-se em novas expressões, tocam-se calidamente.
As crianças reafirmam docilmente suas ancestrais inocências.

Há alto-falantes que fazem proclamações felizes
e locutores barulhentos anunciando eventos incomuns
(como a derrubada de todos os muros da vergonha).
Artistas exibem-se em palanques – cantam, sapateiam e bailam.
Há toda a excitação de um magnífico Woodstock universal.
O dia avança e as multidões não param de chegar.
Teme-se pela segurança da reunião concomitante
de multidões tão espessas.
O clima, porém, é de surpreendente ordem.
Como em um vasto, imenso, colossal domingo de Carnaval em Olinda.
Há batuques, palmas e cânticos renovados.
Tocam guitarras e violões, acordeões, trompetes, clarinetes, violinos, flautas.
E há sorrisos, lágrimas, mas nenhuma dor.
A hora é uma só,
a mesma em toda parte,
quando se informa
que esse dia de paz universal
não é um sonho
– e durará para sempre.

Vôo Porto Alegre-Recife, out. 1981
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ODE A NETOS MUITO AMADOS

Vovô Clóvis

Aos meus netinhos,
que são hoje quatro,
como são os meus quatro filhos,
canto hinos de luz,
de dourado, de brilho
e de fulgor.

Canto e louvo
por seus sorrisos puros,
pela doçura de seus olhares plenos,
pelos impulsos infantis
de suas simples traquinices.

Canto e louvo
por sua leveza tranqüila,
de quem confia em pais, avós e bisavós
e parece esperar da vida
que ela seja sempre uma brincadeira.

Aos meus netinhos,
que são hoje quatro,
três meninos e uma menina clara,
canto e louvo
e lhes anuncio
este amor vivido,
ancestral e vivo.

Obs: em 2010 já são 8.
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MEUS NETOS

Clóvis Cavalcanti

Os netos _ meus netos:
lindos rostos que sorriem,
com doçura,
sem cobranças.
Inocência de olhares
luminosos em ambientes,
às vezes, sombrios.
As mãos dadas, confiantes,
ao avô.
Belas crianças
dependentes das mamães,
buscando os papais.
Meus netos
_ tão vivos,
suaves,
infantis.
Claridade que mostra
o Futuro.
E a Alegria da vida
retomada.
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MORTE DE UM AMBIENTALISTA
Clóvis Cavalcanti

Um ambientalista se matou
(o mataram)
– entregando a vida (seu maior bem), disse ele,
pelos valores maiores da Natureza.

Compreendo seu gesto,
que eu próprio não tomaria.
Acredito na vida,
na necessidade da luta árdua
em defesa dos valores supremos
que a Natureza representa.

Minha vida transiente, toda a Vida,
vai se extinguir um dia.
Que demore a chegar esse momento!
Que a vida no planeta
– tão única e esplendorosa –
não se extinga sem sentido,
assim rapidamente,
ameaçada pela ganância mortal
dos que levaram o ambientalista
(Franselmo)
a seu gesto extremo.

Um ambientalista se matou
– entregando a vida, disse ele,
por amor à Natureza.
Amor verdadeiro, amor pleno, como deve ser o amor:
lição dura para quem não aprendeu a amar.

Refletindo sobre o sacrifício de um homem, desejo que o Natal nos faça mais humanos e que o Ano Novo traga paz para todos.

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MEIO CAMINHO
(Não à maneira do “Mezzo Cammin”,
de Henry Dadsworth Longfellow)
Clóvis Cavalcanti

Metade da minha vida já vivi; sem deixar, porém,
que os anos escorressem e eu não realizasse
os desejos que sempre tive, na juventude,
como agora, de construir torres de sentimentos.

Não é por ambição, mas pelo prazer da construção,
pela paixão e pelas paixões da vida, desfrutadas
intensamente e levando-me a fazer do que gosto,
a superar a dor e a saudar os dias em sucessão.

A meio-caminho, subindo o monte, vejo o Passado
que se estende no meu rastro ondulado e sinuoso,
onde brilham as luzes dos desejos satisfeitos.

Incerto, o caminho do Futuro é desafio _ mas não feito
de tetos esfumaçados, nem de sombras que assustem,
e sim de luz, de auroras douradas e dias desejados.

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GNF, CNF
Clóvis Cavalcanti

Ah! Friburgo!
GNF! CNF!
O mês de novembro,
com sol, calor
e a saudade que crescia
nas vésperas do fim do ano.
Mas havia maio
com a neblina persistente
e um frio que arrepiava
a espinha.
E junho,
com a fogueira e a batata assada,
a quadrilha
e o frio das montanhas.
Ah! Friburgo!
GNF! CNF!
Só entende essa saudade gostosa
quem viveu lá
e experimentou na carinhosa
década de 50,
um convívio de amizade,
de um colégio interno
que era amado.
“Nas montanhas de Friburgo,
jovens lutamos para vencer”
_ dizia o hino do CNF.
E completava:
“Nosso lema é a virtude,
é a saúde, é o saber.”
Foi a época de James Dean,
dos boleros dançados no Clube dos 50
e nas festinhas do Científico.
A banda “Papoula” não tinhas guitarras elétricas,
mas tinha bongô,
piano
e um som muito animado.
Éramos adolescentes
de cabelo cortado
e penteado para trás.
Namorávamos as meninas da cidade,
que moravam distante.
Era preciso descer uma ladeirona
para sair das montanhas onde vivíamos
até o vale lá em baixo.
Ladeira difícil,
mas com cheiros de eucaliptos
e pinheiros,
o Castelinho
e uma paisagem venerada.

Ah! Friburgo!
GNF! CNF!
Tantas marcas, tantas recordações.
Tantas tardes, tantos dias, tantas manhãs.
Éramos felizes
_ e o sabíamos.

Olinda, dez. 1986.
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Amizades
Clóvis Cavalcanti

Não, eu não considero amizades
como instantes de tempo transitório.
As pessoas de meu bem-querer
entram em minha vida,
agasalham-se no meu interior
e nele vão ocupar espaços permanentes.
Deitam raízes
que se fixam em minhas entranhas,
lá onde semeio os sentimentos profundos.
Por isso, quando se vão,
ou quando desaparecem de minha convivência,
ou quando se tornam fantasmas
de meu infrutífero buscar,
vão-se também pedaços de mim
– essas amizades que enriquecem a vida,
que preenchem o meu peito esquerdo,
onde também doem.

Olinda, 1988.

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Amemos

A meus queridos, no Natal
Clóvis Cavalcanti

A luz do dia
passa ligeiro
e as sombras somem
com igual rapidez.
Dou com olhares
e sorrisos de alegria
sem que a rapidez do tempo
os iniba.

Os dias passam,
os meses e os anos.
A vida escoa,
meu desejo de amar aumenta.
Tanta coisa bela
a ser desfrutada!
Rostos infantis,
expressões afetuosas,
flores nos jardins da natureza,
os olhares, os sorrisos.
E o amor, seiva vital.

A vida inteira vibra:
não há tempo a perder.
Amemos!
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AMEI
Clóvis Cavalcanti

Amei, amei, amei.
Amei com a alma,
amei com o coração
(não com o intelecto).
Amei em dias de chuva
em manhãs de muito sol
em Porto de Galinhas,
Suape, Pirangi do Norte.
Amei nos matos de Gravatá.
Amei nos escondidos de Olinda.
Amei nos barulhos do Recife.
Amei ao meio-dia,
amei à meia-noite,
amei à meia luz,
amei à luz inteira.
Amei  e como!  no carnaval
e na rua, nas canções e nos blocos.
Amei sob os lençóis
de muitas e muitas camas.
Amei no São João,
nos domingos sem compromissos,
abraçando-me à amada
no tapete e no chuveiro.
Amei em setembro,
em julho e fevereiro.
Amei, amei, amei.
Ah! como amei!

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AMAR-TE

Clóvis Cavalcanti

Amar teu corpo
entrelaçado ao meu
e teu sorriso,
teus pés e teu umbigo.


Amar teu sexo
entreaberto ao meu
e teu olhar,
tuas mãos e tua ternura.


Amar teu jeito
oferecido ao meu
e teu falar,
tua tez e teu andar.


Amar-te toda,
tão entregue a mim,
e teu viver
teu ser e teu amor.

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AMA-ME

Clóvis Cavalcanti

Ama-me pelo nome,
ao som de Schubert
e sob o verde destas folhagens cúmplices.

Ama-me pelo nome,
pelo endereço, pelo azul
da manhã de março em Olinda.


Ama-me pelo nome,
pelo verbo viver vivido,
pelo branco das espumas deste mar.


Ama-me pelo nome,
pelo tato, pelo olfato,
pelo êxtase e gritos deste orgasmo.

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A MULHER QUE EU AMO
A Vera, mais uma vez, e sempre
Clóvis

A mulher que eu amo está dormindo,
faz sol e eu a toco
(se não fizesse, eu também a tocaria).
A mulher que eu amo adormeceu
depois que nos amamos:
garantia de que ainda mais nos amaremos.
A mulher que eu amo está no jardim,
colhe plantas e respira o ar da tarde,
talvez à procura do Amado
(que a vê e sente-se feliz com essa possível busca).
A mulher que eu amo descansa na rede,
na expectativa de concretização de sonhos reais
(o amor é um sonho real).
Ela sente as vibrações do afeto
que a rodeiam como o ar que respira
(sua sensibilidade capta o inefável).
E o Amado confirma assim
todas suas razões que o fazem amá-la.

Recife, 7 de outubro de 2003 – 19h
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Mulher

A Vera

Pensando
no modo
de seres.

Olhando
de frente
teus olhos.

Sentindo
teus cheiros
presentes.

Buscando
tua forma
de amares.

Amando
segundo
teus ritmos.

Querendo,
constante,
te ter.

Mulher,
amante
e amada.

Feliz Natal
Clóvis
Olinda/Garanhuns, dezembro 2002.
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Amar de Madrugada

Para Vera
Clóvis Cavalcanti

Quero te amar de madrugada,
quando estivermos sob efeito do sonho
e o mundo ainda se parecer
com o nosso da ocasião do Êxtase.

Quero te amar de madrugada,
quando a brisa sopra docemente,
obrigando-nos a que nossos corpos se busquem
para superar o frio que antecede a Aurora.

Quero te amar de madrugada,
quando tudo é silêncio e sossego,
nossas vozes têm mais música
e nossos carinhos mais Beleza.

Quero te amar de madrugada
no aconchego da suave escuridão,
na percepção do total isolamento,
na completa comunhão do Amor vivido.

Dia dos Namorados, 12 de junho de 2002.
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A AMADA

Clóvis Cavalcanti

A Amada me faz falta
quando estou longe dela.

A Amada me enternece
quando me vem à lembrança.

A Amada me enriquece
quando zela por mim.

A Amada me resgata
quando no caminho me perco.

A Amada me conquista
quando a mim se oferece.

A Amada me completa
hoje, sempre e sem fim.

Feliz Natal
Garanhuns, dezembro de 2001.

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DESCRIÇÃO DA AMADA

(à maneira do livro dos Cânticos)

A Vera, meu amor,
Clóvis

Como és amável, minha amada,
como és linda!
Com tuas asas imaginárias,
desces qual um anjo
para o lado do teu amado.
Teus cabelos escuros
transformam teu rosto em luar
e teus olhos do sertão
aumentam o brilho dessa luz.
Tuas mãos produzem mel
para os lábios que te esperam
e que buscam a melodia dos teus.
Teu corpo é como uma rosa de sol
– macio, claro e repousante.
És toda amor, minha amada,
e em ti eu me encontro.

Olinda, 12 junho 2003
____________________
JUNTOS

Clóvis Cavalcanti

A amada dorme
e eu sinto que sonhamos juntos.
A amada acorda
e eu sinto que estamos juntos.
A amada olha
e eu sinto que marchamos juntos.
A amada cala
e eu sinto que amamos juntos.
A amada pensa
e eu sinto que voamos juntos.
A amada ri
e eu sinto que sorrimos juntos.
A amada cansa
e eu sinto que arfamos juntos.
A amada explode:
um só prazer desfrutamos juntos.
_________________

AS VERAS DE VERA
Clóvis Cavalcanti

Dez anos com Vera,
Verinha, Veríssima, Verícola
– de forró a forró,
de farra a farra,
farra de carnaval e de São João,
de Olinda, Gravatá e Garanhuns,
de Oxford, Pipa, Valinhos e Illinois,
farra sem ferro nem forra
nem forro nem ferradura
nem nada que forre ou ferre.

Dez anos com Vera,
– e também dez horas, dez dias,
dez meses, dez vezes, dez vozes,
dez vivas, dez noites, dez beijos,
dez e dez, mais: infinitamente.

Vera é dez, é doze, é dezenas,
é dúzia, soma, multiplicação,
exponenciação, máximo divisor comum,
múltiplo de oito, de oitenta,
do dia de Santo Antônio
na era de noventa e sete
e nas eras de junho,
de outubro, de dezembro
de anos ímpares e pares.

Vera é verdade, é virtude,
é carinho, sentimento, luz.
É manhã, noite, tarde.
E madrugada de amor.

Olinda, 13 de junho de 2007. 17h10

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SORRISO DO AMAZONAS
(pensando em Anny Letícia)

Clóvis Cavalcanti

Veio do Amazonas um sorriso
e o carnaval de Olinda o incorporou.
Passou rápido, escondeu-se,
encoberto por máscaras e fantasias.
E ao fim se recolheu – desfez-se,
virou olhar perplexo
e múltiplas interrogações angustiosas.

O sorriso do Amazonas se foi,
restou um vazio na alegria olindense.
Olinda pára e pensa:
teria espantado o amor amazonense?

Olinda, 17.3.10.


De: Anny Letícia Coelho

Oh Linda cidade, és tu Olinda
encantaste-me com o histórico de tuas ruas
que colorem e inebriam os olhares viajantes

Tuas ruas tortuosas
 entornaram do meu ser
 suor e lágrimas ardorosas

Em pleno alvoroço carnavalesco
arrancaste do meu peito o sorriso reluzente

Oh tu que és linda
nem assim desencantaste
o deslumbre de uma amazonense
pelo fervor do frevista

Deixando-me nostálgica da sua boemia
e dos seus ares frenéticos
De tu - OhLinda!

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Amemos

Aos meus queridos, no Natal
                Clóvis Cavalcanti


A luz do dia
passa ligeiro
e as sombras somem
com igual rapidez.
Dou com olhares
e sorrisos de alegria
sem que a rapidez do tempo
os iniba.

Os dias passam,
os meses e os anos.
A vida escoa,
meu desejo de amar aumenta.
Tanta coisa bela
a ser desfrutada!
Rostos infantis,
expressões afetuosas,
flores nos jardins da natureza,
os olhares, os sorrisos.
E o amor, seiva vital.

A vida inteira vibra:
não há tempo a perder.
Amemos!

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Linda Flor da Madrugada
Clóvis Cavalcanti

A mulher amada cuida do marido,
põe as coisas no lugar,
organiza a casa,
torna a vida agradável
linda flor da madrugada.

A mulher amada prepara muitas festas,
limpa, arruma, enfeita o ambiente,
melhora a atmosfera
e garante alegria constante
linda flor da madrugada.

A mulher amada prepara o leito,
perfuma a alcova,
cumpre o ritual da intimidade
e assegura que o amor não feneça
linda flor da madrugada.


Belém do Pará, 11.12.08.

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Tempo de Viver
Clóvis Cavalcanti


Tempo de pensar a vida
de viver os dias
de respirar as horas
de sentir todos os minutos
de contar as batidas deste coração.

Tempo de amar as presenças
de atenuar as asperezas
de suavizar o caminho
de buscar o brilho dos olhares
de acariciar cabelos e rostos e lembranças.

Tempo de esticar as emoções
de exprimir sentimentos
de unir contrários
de usar doces palavras
de saber que o tempo não retorna.

Tempo de despertar para o essencial
de encontrar razões de viver
de experimentar vibrações desejadas
de buscar a ternura da existência
de amar, amar e ser amado.
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MEMÓRIA
Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
            este coração.

Nada pode o Olvido
contra o sem-sentido
            apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
            à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas
            – essas ficarão.

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Tenho saudades

Clóvis Cavalcanti

Tenho saudades de você,
menina de azul,
minha namorada doce,
princesa de uma noite.
Tenho saudades de você,
mulher do mato com os pés na água,
companheirinha do Carnaval.
Tenho saudades de você,
minha amante de noites de chuva.

Tenho saudades de você,
de seu jeito macio e mão cheirosa,
de seu corpo rosado e lábios coloridos.

Tenho saudades de você,
menina de encarnado,
minha namorada índia,
rainha do meu coração.
Tenho saudades de você,
matuta do agreste com os pés na pedra,
dançarina de um baile vespertino.
Tenho saudades de você,
minha amante de manhãs suaves.

Tenho saudades de você,
de seu jeito dolente e corpo carente,
de seus braços envolventes e boca entreaberta.

Tenho saudades de você,
menina de lilás,
de noites de carinho e dias de esperança,
de ventos e relâmpagos,
de vida e êxtase.
Tenho saudades de você,
menina de turquesa –
de seu amor,
de ser teu amor.

Olinda, 27.9.09, 11h20.

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MEU TEMPO

Clóvis Cavalcanti

Meu tempo é feito de flamboyants floridos

com suas cores vitais
e seus múltiplos chamamentos.
Meu tempo é feito do aroma doce
que sai do amarelo cantante das acácias.
Meu tempo é feito das mangueiras tropicais
com seus frutos pingentes, de árvores de Natal,
que não permitem que se desista da vida
e da beleza completa do mundo natural.
Meu tempo é feito dos sorrisos precoces,
dos cumprimentos vespertinos,
da brisa que sopra carinhosamente
nas tardes rosadas de dezembro.
Meu tempo é feito de amizades
que não têm fronteiras
e se expandem infinitamente
em todas as direções
e por todas as eras.
Meu tempo é feito de expectativas reais
com suas formas antevistas
e suas concretizações imprevisíveis.
Meu tempo é feito de uma louca busca,
de uma brincadeira imensa,
sem espaço para as reflexões racionalistas.
Meu tempo é feito de desejo de doação
sem visar lucro ou retorno
– vontade visceral de ofertar um amor gratuito.



Recife, dezembro de 1982.
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CORRER, CORRER, CORRER

Clóvis Cavalcanti
Correr, correr, correr,
agarrado ao vento do verão,
sob o sol claro de dezembro,
sem medo de arrastar todas as multidões.

Correr, correr, correr
e, enquanto correr,
abrir os braços e cantar
para a platéia aturdida
dos que são apenas assistentes.
Tirar o sapato, o calção;
 tirar a roupa;
tirar o pensamento pesado;
tirar o juízo, a falta de imaginação.

E espantar os astrais sombrios,
as desesperanças,
as destemperanças,
as decepções,
os dias de agosto,
os dias de desgosto.

Correr, correr, correr,
no meio das estradas sem começo e sem fim;
sem parar em porteiras
e sem dar a vez a carros e a motoristas
embrutecidos pelos motores a explosão.

Correr, correr, correr
e, enquanto correr,
olhar para as moças de todas as manhãs,
para os homens das madrugadas boêmias,
para os meninos do amanhecer lúdico.

Correr, correr, correr,
resistindo à fumaça venenosa
das incompreensões adultas.

Correr nos bosques de cajueiros,
de flores e borboletas
das florestas essenciais.
Correr à beira-mar.
Mas correr sobretudo à beira-amar.
Amar, amar, amar.
Correr, correr.


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POEMA ADOLESCENTE 
Clóvis Cavalcanti

Sístole, diástole
nadir, zênite
um presente de grego vindo da Inglaterra
vontade louca de infinito
ânsia de estar na Conchichina

e lá se vão os primeiros pássaros de passagem
nas suas mutações
levados pelo zéfiro

na campina verde
turvada do verde das minhas esperanças
escorre a estrada de seixos infinito a dentro
como a nos levar para o outro lado do universo

e lá embaixo
o olmo que cobre uma choupana
reflete os suspiros de humildade
de um romântico vate em devaneios

folha morta que cai seca no outono
céu escuro no cenário negro da árvore desfolhada
discrepância de cores na natureza semi-morta
o céu, escuro
a terra, roxa
as folhas, secas
os seixos, brancos
as nuvens, pardas
a vontade, cinza
o coração, azul
o devaneio, verde

CNF, 21.11.58 - 16h12min

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coletâneas:


        “A vida inteira vibra:
 não há tempo a perder.
 Amemos!”  Clóvis Cavalcanti.



“ASSOVIO”
           Clóvis Cavalcanti

 Quando eu corria pelo parque deserto
 esta manhã,
 um assovio me desfez a concentração.
 Pensei que era você que me chamava.
 Talvez fosse.
 Olhei, porém,
 e vi apenas um passarinho alegre
 que catava gravetos pelo chão.


“MEU SONHAR”
                  C. Cavalcanti

Meu céu,
meu luar,
meu buriti.
Meu sol,
meu cantar,
meu açaí.
Doce nuvem
do meu sonho:
raio de luz aceso
no meu aqui.


......

 ‘SERTÃO’

“Pois é aqui que vale a pena,
 nas noites de chuvas violentas,
 nos dias de sol inclemente,
 nas tardes de mornas ventanias,
 nos pés-de-serra esquecidos,
 levar ao leito a mulher amada
 e assim fazer bater o coração.”

........

“MEU TEMPO”

Meu tempo é feito de uma louca busca,
De uma brincadeira imensa,
Sem espaço para reflexões racionalistas,
---------------------------------------------
-- vontade visceral de ofertar um amor gratuito.

......



“esta noite revivida,
 estes marcos e lembranças,
 esta terra, esta saudade,
 estas dores ancestrais,
 estes dias, aquele dia,
 meus amores, meus Natais”
                          C. Cavalcanti

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Currículo poético de Clóvis Cavalcanti:

Nascido na Usina Frei Caneca, município de Maraial, Pernambuco, em 8.12.1940. Criou-se entre canaviais. O pai era contador da usina e a mãe, agente do Correio.Não teve curso primário regular. Aprendeu a ler em casa. Freqüentou escolas públicas e fez o último ano com padres salesianos de uma escola interna em Frei Caneca, onde foi aluno externo. Fez o curso secundário (1952-1959) no Colégio Nova Friburgo (uma escola leiga da Fundação Getúlio Vargas, em Nova Friburgo, Estado do Rio), como interno.
Estudou ciências econômicas na Universidade do Recife (1960-1963). Teve como paraninfo Manoel Correia de Andrade e como patrono da turma Caio Prado Júnior. Estagiou na Sudene convivendo com Celso Furtado, Chico de Oliveira, Luís de Vasconcelos e outros.
Pós-graduação no Centro de Aperfeiçoamento de Economistas da Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, janeiro-agosto de 1964. Aí estudou com Mário Simonsen e assistiu a palestras de Nicholas Georgescu-Roegen, pai da economia ecológica.
Mestrado de economia na Universidade de Yale, Estados Unidos (de setembro de 1964 a junho de 1965). Conviveu aí com James Tobin, Prêmio Nobel de Economia de 1988, e Celso Furtado, que estava exilado como professor visitante em Yale. Foi levado para Yale pelo prof. Werner Baer. Contra a vontade deste, decidiu não fazer doutorado em Yale por considerar que o melhor doutorado seria o da vivência com a realidade do Brasil e por discordar do conteúdo da teoria econômica ensinada nos Estados Unidos. Trabalhou em seguida no Comitê dos Nove, na União Panamericana (Organização dos Estados Americanos – OEA), entre junho e setembro de 1965, levado pelo prof. Carlos Díaz-Alejandro. Conviveu aí com Hollis Chenery e Rômulo de Almeida.Entrou na Sudene, convidado pelo superintendente-adjunto, seu ex-professor, Fernando Mota, para integrar a equipe do Grupo do Vale do Jaguaribe, trabalhando com franceses (de set. 1965 a abril de 1967). Ingressou também na Universidade do Recife, depois Federal de Pernambuco (UFPE), e na Universidade Católica de Pernambuco em setembro de 1965. Em outubro de 1967, entrou no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS) e na Faculdade de Ciências de Administração da Fesp (Fundação do Ensino Superior de Pernambuco, depois Universidade de Pernambuco – UPE). Em outubro de 1970, renunciou a todos os empregos para ficar em dedicação exclusiva na UFPE, onde havia participado da fundação do Pimes (mestrado de economia). Em janeiro de 1973, passou a trabalhar apenas no IJNPS, como pesquisador e diretor do Departamento de Economia, voltando a conviver com Gilberto Freyre. Deu aulas na UFPE em 1974-1975, havendo organizado na graduação de economia, no segundo semestre de 1975, o primeiro curso regular de economia do meio ambiente. Depois disso, dedicou-se somente à pesquisa no IJNPS, que virou Fundação Joaquim Nabuco em junho de 1980. Passou a dirigir o Instituto de Pesquisas Sociais da Fundação, cargo em que ficou até fevereiro de 2003 (com breve interregno entre março e julho de 1986). Continua pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor na Universidade Federal de Pernambuco no curso de Ciências Ambientais, Engenharia Elétrica, Eletrotécnica,  desde 2004

Escrito por Vera:
... Clóvis não se define com palavras, nem currículo, só tendo o provilégio de conviver e viver ao seu lado. Com suas explosões, seu carinho e amor a natureza... É impossível não amá-lo. É seguir o seu ideal, sua perseverança, sua natureza taoista. É amar, amar, amar, correr, correr, correr....